quarta-feira, 22 de junho de 2011

Carta de um herege



É este o vosso rei? Prostrado no Horto, tendo a face por terra, tendo a alma triste até a morte?
Pense bem, isso não acontece com um rei. Um rei goza de prazeres e tem servos prostrados aos vossos pés. Tem dinheiro, fama e delícias, como se entristecer com uma vida assim? Um rei não conhece a tristeza e a agonia.
Oh… perdoem-me, cristãos, vosso rei era tão pobre que não tinha onde reclinar a cabeça para descansar e era um simples filho de carpinteiro, não é?
Vejam quem vem lá… olhem, cristãos, o vosso rei com um manto encharcado do próprio sangue; uma coroa de espinhos e um cedro de cana… Que rei esfarrapado! É esse o vosso rei? Respondam, cristãos?! Ele não abre a boca… não dá uma ordem, recebe cusparadas na face desfigurada e permanece em silêncio… cadê a sua autoridade? simples soldadinhos brincam com a suposta majestade do vosso rei, onde está o seu poder? A sua glória? Porque não reage?
Vosso rei vai morrer da forma mais dolorosa e infame e permanece calado. E onde estão os seus seguidores? Há poucos dias o aclamavam e hoje vejo poucos que permanecem com ele, um rei não acabaria assim, abandonado…
Vejam suas mãos e seus pés, seu corpo dilacerado, isso não acontece com um rei…
Cadê o seu exército?
Entre dois ladrões ele foi pregado e diz poucas palavras entre o sangue abundante e as lágrimas.
Pense bem, cristãos, um rei não morre assim…

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